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Ele é “o” cara – emprego da menor classe de palavras, o artigo


Embora o artigo seja a menor das classes de palavras, não é, por isso, a menos importante.
Essa classe é composta apenas pelas formas o, a, os, as classificadas como artigos definidos, e um, um, uns umas – os chamados artigos indefinidos. Mas um descuido no emprego e… tcham, tcham, tcham… muda-se completamente a informação!

Observemos um trecho da música “Último desejo”, de Noel Rosa:
“(…) Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim (…)” 

“Na biografia de Noel Rosa, consta que a cantora Aracy de Almeida andou alterando a letra do ilustre compositor. O amigo de Noel, Armênio Mesquita Veiga, deu-lhe a notícia nestes termos: “… em vez de ‘Mas meu último desejo’, ela canta ‘Pois meu último desejo’ e em lugar de ‘Que meu lar é o botequim’ ela diz ‘Que meu lar é um botequim’.

Diante da informação do amigo, Noel reagiu: ‘Juro que nunca mais dou música minha pra ela gravar’”. (João Máximo & Carlos Didier. Noel Rosa, uma biografia. Brasília, editora da Universidade de Brasília, 1190 p. 446-52.)

Tinha razão o compositor Noel Rosa de ficar irritado com as alterações que a cantora Aracy de Almeida introduziu na letra de sua canção.

Na troca de conjunções, Aracy alterou semanticamente e sintaticamente o trecho, já que a ideia original era de oposição (mas é uma conjunção coordenativa adversativa, que inicia uma oração de mesma classificação) e virou uma explicação, o que não faz sentido no contexto.

No caso específico dos artigos, a simples troca de ‘o’ por ‘um’ também altera semanticamente o trecho em questão. Ao dizer que o “lar é o botequim”, o eu lírico afirma que passa tanto termpo nesse ambiente que o bar já pode ser considerado a morada dele. Quando a intérprete altera para ‘meu lar é um botequim”, significa que a casa do eu lírico é que se assemelha a um bar, ideia em tudo diferente do contexto de boêmia da canção.

Assim, artigos definidos e indefinidos não podem ser empregados indiscriminadamente, mesmo sendo palavrinhas tão pequeninas!

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